06/08/2014

A Ira de um Anjo: Psicopatia Infantil



Sugestão dada pelo leitor Alfredo M. Dias

A psicopatia é um tema pouco explorado na Psicologia. Um dos motivos disso acontecer é porque o assunto envolve mortes, sexualidade e abusos – conteúdos geralmente “proibidos” de serem discutidos em nossa sociedade. Mais tabu ainda são os casos de psicopatia infantil.

É de senso comum que a psicopatia é uma doença incurável, onde o indivíduo já nasceria com ela e desde a infância apresentaria problemas comportamentais e condutas criminosas. Um dos comportamentos mais comuns de tais indivíduos seria os maus-tratos aos animais, além da incapacidade absoluta de amar e sentir compaixão. Entretanto, para a Psiquiatria nenhuma criança pode ser diagnosticada como psicopata. De acordo com o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), isso só pode ser feito à partir dos 18 anos. Apesar disso, as crianças e os adolescentes podem ser enquadrados no Transtorno de Conduta, caracterizado por um padrão comportamental agressivo e violento. Todavia, há uma tendência na Psiquiatria em determinar que a psicopatia não é uma doença, mas sim um Transtorno de Personalidade, assim como a depressão, bipolaridade e borderline. Mesmo assim os psiquiatras dizem que os psicopatas já nascem dessa forma: maldosos.

Para se ter uma ideia de como o tema é pouco explorado, são poucas as obras que pode-se encontrar sobre a psicopatia, em língua portuguesa, pelo menos. Aqui, é fácil encontrar o péssimo livro “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado”, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. O tópico é abordado de forma extremamente superficial. Segundo a autora, todo e qualquer psicopata nasce com a personalidade psicopática pronta:

Importante destacar que ninguém vira psicopata da noite para o dia: eles nascem assim e permanecem assim durante toda a sua existência. Os psicopatas apresentam em sua história de vida alterações comportamentais sérias, desde a mais tenra infância até os seus últimos dias, revelando que antes de tudo a psicopatia se traduz numa maneira de ser, existir e perceber o mundo (SILVA, 2008, p. 84).

Contudo, antes de afirmar se qualquer psicopata “já nasce” psicopata, é preciso avaliar as variáveis ambientais e orgânicas que influenciam o seu comportamento, uma vez que nenhum ser humano se comporta fora de um contexto social e cultural. Nem todo psicopata vira um assassino. E nem todo assassino é psicopata. Muitos serial killers possuem personalidade psicótica e esquizofrênica. Logo, se um estuprador segue tal conduta, em uma cultura machista, não podemos o “descolar” deste ambiente, afirmando que o mesmo se comporta para satisfazer, meramente, seu “desejo assassino”.

Não existe um consenso científico sobre as causas do transtorno psicopático. Entretanto, algo é certo: o papo de “bom selvagem” está longe de ser uma realidade humana. Pela lógica dialética, o bem é interdependente do mal, ou seja, um só existe por causa do outro. Negar a maldade é recusar a própria condição humana. Podemos dizer que cada indivíduo possui tendências emocionais, bem como um temperamento, desde o nascimento; por outro lado, toda criança precisa de amor e atenção para tornar-se um ser consciente e com capacidade de amar. Não basta dizer que os indivíduos nascem prontos, pois aí toda a educação seria inútil.

Os casos de psicopatia envolvem tendências comportamentais. Nos casos mais graves, não há a menor necessidade de um grande trauma ou abuso na infância que justifique a personalidade assassina, no futuro. Por exemplo, o caso do Jeffrey Drahmer, um serial killer que assassinou 17 homens, mesmo sem passar por qualquer tipo de trauma na tenra idade. Drahmer, inclusive, afirmava que por volta dos seus 15 anos passou a ter pensamentos obsessivos de assassinato. Essas obsessões invadiam a mente de Drahmer, até que um dia a fantasia rompeu a barreira mental, se tornando realidade. Abaixo, uma entrevista completa com um dos psicopatas mais famosos do mundo:


Michal Stone, psiquiatra forense da Universidade de Columbia, criou um índice classificatório da maldade, que ficou conhecido como “O Índice da Maldade”, atual programa do canal Investigação Discovery, da TV paga. Stone lançou o livro “A Anatomia do Mal” (2009), onde aborda os 22 níveis da maldade. No primeiro nível, estão aquelas pessoas que matam por legítima defesa. O nível máximo, 22, é referente aos casos de psicopatia que envolvem tortura e morte, mesmo que de forma inconsciente, incluindo prazer sexual (aqui está Jeffrey Drahmer).

O caso de Beth, classificada por muitos como uma criança psicopata, deu origem ao documentário “A Ira de um Anjo”, realizado em parceria com o psicólogo clínico Dr. Ken Magid, especializado em casos de abuso infantil. Beth foi abusada sexualmente, com apenas um ano de idade, pelo seu pai biológico. Ela e seu irmão John foram para uma casa de adoção, porém ao serem adotados, seus novos pais perceberam que Beth começou a machucar o genital do seu irmão, além de enfiar agulhas em animais. Por culpa do seu comportamento, ela dormia com a porta do quarto trancada. Beth pegava algumas facas da cozinha da casa – segundo seu relato, a intenção era matar seus pais adotivos e seu irmão. Na época do documentário ela tinha cerca de 6 anos. Algumas pessoas, entretanto, classificam a garota como sociopata, outras com Transtorno de Apego Reativo. O complicado é que se pegarmos o DSM, qualquer doente mental pode se encaixar facilmente em 10 ou mais classificações.

Felizmente, Beth recebeu tratamento e mudou o seu comportamento. De acordo com o documentário (abaixo), ela desenvolveu a capacidade moral e aprendeu a amar. Certamente, esse caso é um forte exemplo de como um ambiente adequado pode reverter crianças classificadas como maldosas. Portanto, pode-se dizer que a classificação de psicopatia apenas serve para aqueles que não alteram o próprio comportamento, mesmo adultos. Infelizmente, por não haver qualquer tipo de tratamento adequado e confiável para tais casos, fica difícil afirmar que a incapacidade de amar é uma condição fetal e fatal, para alguns seres humanos.

 

As conexões neuronais são formadas pelos estímulos ambientais e orgânicos que somos expostos. O sistema límbico é uma região cerebral, responsável pelas nossas emoções. Essa área existe em todos os mamíferos. Algumas espécies de baleia possuem uma complexidade maior nesta área; indicando que o amor não é exclusividade humana (Marino, 2004). No ser humano, o sistema límbico é ativado de modo diferente, mediante situações violentas e morais. De acordo com alguns teóricos, nos psicopatas essa diferença não existe. Exames de ressonância magnética funcional têm corroborado esta hipótese (Moll & Eslinger, 2001). No entanto, correlação não implica causação. O fato de uma área ser ativada ou não, diante determinados contextos, não prova que o cérebro é desta forma desde o nascimento, tampouco que esta diferença é a causa do comportamento psicopata. De alguma forma, uma falta  de reação do sistema nervoso, quando deparamo-nos com algo chocante, pode indicar um condicionamento cultural.

James Fallon, psiquiatra da Universidade da Califórnia, ao analisar o próprio cérebro, percebeu que seus padrões eram exatamente iguais aos dos piores casos de psicopatia que já havia analisado. Fallon dizia que sempre percebeu possuir características semelhantes de um psicopata. No TED Talk que participou, ele afirma que culturas extremamente violentas, contribuem para que os indivíduos se comportem de forma psicopática.

Tudo indica que a influência familiar e cultural podem determinar a forma como sentimos o mundo, além de indicar como nós podemos prevenir assassinos. Fallon nunca matou qualquer indivíduo ou cometeu crime algum, apesar de ter um “cérebro psicopata”. Isso demonstra que a natureza humana precisa ser estudada cada vez mais, uma vez que medidas como a punição, geralmente adotadas pelas autoridades estatais, comprovam um fracasso visível: sabemos muito pouco sobre o homem. Assim, nos tornamos uma ameaça cada vez maior para nós mesmos.

Fonte: Pensar Além 

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