12/04/2017

Os Restos Mortais do Cosmonauta Vladimir Komarov, 1967


A caminhada da humanidade para as estrelas teve heróis desconhecidos. Um deles foi o cosmonauta Vladimir Komarov.

Antes de darmos sequência à história existente por trás da foto acima, existe uma pequena explicação pendente para adicionarmos um pouco mais de conhecimento ao nosso artigo. Afinal, por que utilizamos o termo “cosmonauta” quando nos referimos a Komarov? Pois bem. Os termos “cosmonauta” e “astronauta” ganharam força principalmente na década de 60, durante a Guerra Fria, no entanto, ambas possuem o mesmo significado: Piloto ou passageiro de um veículo espacial que viaja para fora da atmosfera terrestre. O sufixo nauta deriva de uma palavra grega (nautes), que significa “marinheiro”. No caso de cosmonauta, o início da palavra deriva de “cosmos”, também de origem grega, cujo significado “universo”. Já com astronauta, o início deriva de “ástron”, que significa “estrela”. E pra se ter noção, na China ainda existe outra expressão local para designar tal do piloto ou passageiro, a Taikonauta, onde “Taiko”, uma palavra chinesa, significa espaço.

As viagens de Komorav na Soyuz 1 fizeram dele o primeiro cosmonauta soviético a ir duas vezes no espaço, e também o primeiro homem a morrer em uma missão espacial – quando a cápsula Soyuz 1 caiu durante a sua reentrada na atmosfera terrestre em 24 de abril de 1967, devido a uma falha no paraquedas. Entretanto, como ele morreu com o impacto da queda, não é exatamente considerado o primeiro humano a morrer em uma missão espacial. A imagem acima mostra oficiais soviéticos olhando os restos mortais carbonizados de Komarov durante seu funeral enquanto o caixão estava aberto. Apenas um pedaço do osso do calcanhar “sobreviveu” ao acidente.

Toda essa tragédia anunciada começou durante a comemoração do 50° aniversário de fundação da URSS, quando o governo exigiu algo grande do Programa Espacial Soviético. Leonid Brezhnev, então líder da União Soviética, decidiu organizar um encontro espacial espetacular entre duas naves espaciais soviéticas. O plano seria lançar dois veículos espaciais ao espaço para os mesmos executarem uma performance dramática, onde seria feito um acoplamento orbital que permitiria que os cosmonautas deslocassem-se entre as duas naves. A primeira cápsula a ser lançada foi a Soyuz 1, com Kamarov dentro. No dia seguinte, um segundo veículo decolaria com mais dois cosmonautas; os dois veículos se encontrariam, acoplando-se um ao outro, Kamarov iria se deslocar para outra nave, trocando de lugar com um colega e voltaria para casa na segunda nave. Brezhnev deixou bem claro que queria que isto acontecesse.

Kamarov foi escolhido para comandar a Soyuz 1, em 1967, com Yuri Gagarin como seu cosmonauta de apoio. Ambos sabiam que a cápsula espacial não era segura para voar, mas todos do Programa Espacial estavam aterrorizados com a reação de Brezhenev diante de um possível adiamento e/ou cancelamento da missão. Kamarov disse a seus amigos saber que provavelmente morreria. Mas não quis voltar atrás, porque ele não queria que Gagarin morresse, uma vez que se não voasse, Gagarin iria em seu lugar. Vladimir Kamarov foi um dos melhores amigos de Gagarin. Suas famílias muitas vezes se juntavam, em raros momentos em que os amigos estavam livres. Eles caçavam juntos e também faziam parte de uma pequena fraternidade de homens que encaravam a morte para fazer viagens espaciais.

astronauta 1

Gagarin sugeriu que a missão fosse adiada. A pergunta era: Quem diria a Brazhev? Gararin escreveu um memorando de 10 páginas e deu para seu melhor amigo no KGB, Venyamin Russayev, mas ninguém se atreveu a enviá-lo para a corrente de comando. Com menos de um mês para o lançamento, Kamarov percebeu que o adiamento não era uma opção. Um dos amigos de Komarov no KGB sugeriu que ele deveria se recusar a voar. De acordo com o livro Starman (Por Jamie Doran and Piers Bizony), Kamarov respondeu: “Se eu não realizar esse voo, eles vão colocar o piloto de apoio no meu lugar.” Que era Yuri Gagarin. Vladimir Komarov não podia fazer isso com seu amigo. O livro o cita dizendo: “e ele vai morrer em vez de mim. Nós temos que cuidar dele.” Komarov, em seguida, caiu em prantos.

Com a aproximação da data de lançamento, todos estavam cada vez mais pessimistas. Haviam graves problemas que tornavam a nave perigosa para voar. Os pré-voos de teste foram bem perturbadores, os técnicos que inspecionaram a Soyuz 1 tinham encontrados 203 problemas em sua estrutura. Uma atmosfera de mau presságio prevalecia no cosmódromo. Conforme Vladmir Komarov entrava na van de transporte que o levava para a plataforma de lançamento, o ar de resignação fatalista caia sobre ele. Seus companheiros cosmonautas tentavam animá-lo, tentavam tirar um sorriso de sua feição de tristeza e preocupação. Eles começaram a cantar, incentivando-o a participar. No momento em que chegou a plataforma, alguns minutos depois, ele estava cantando com seus companheiros e o clima pessimista tinha diminuído um pouco. Gagarin apresentou-se a todo vapor para o lançamento e tentou convencer a equipe a deixá-lo pilotar no lugar de Kamarov, mas a tripulação (incluindo Kamarov) se recusaram a deixar isso acontecer. Kamarov voou na nave, quase certo de que provavelmente morreria. Oito minutos depois estava em órbita pilotando uma das naves espaciais mais sofisticadas que já foi lançada.

Os problemas começaram quando um dos painéis solares da Soyuz não se desdobrou, impossibilitando o funcionamento de alguns equipamentos de navegação. Outras falhas ocorreram nesse mesmo dia. A primeira tentativa de alterar a órbita da nave foi insatisfatória. A nave começou a girar em torno de seu próprio eixo, e girou ainda mais quando Komarov tentou corrigir o problema. O sistema de controle térmico estava danificado, a comunicação com o solo tornou-se irregular e a falta de energia elétrica impediu o funcionamento do sistema de orientação espacial. Vendo todos esses problemas, o controle da operação em terra decidiu cancelar o lançamento da Soyuz 2 e trazer Kamarov de volta o mais rápido possível.

Kamarov tentou sem sucesso orientar o módulo da Soyuz por cinco horas. A nave estava transmitindo informações de status não confiáveis e a comunicação acabou sendo perdida. Usando procedimentos que ele nunca havia praticado em treinamento, Kamarov conseguiu alinhar a nave e disparar os retrofoguetes. Apesar dos seus esforços heróicos para salvar a missão, o pior estava por vir. Ele conseguiu reentrar na atmosfera da Terra em sua 19° órbita, mas como a cabine estava descendo através da atmosfera, o paraquedas de desaceleração reserva acabou desprendendo-se de seu lugar, embora o paraquedas principal tenha permanecido em sua acomodação. Quando o paraquedas reserva saiu, emaranhou-se na pista de saída do paraquedas principal, impossibilitando seu acionamento. A Soyuz 1 colidiu em grande velocidade no estepe – uma formação vegetal de planície com poucas árvores -, em Orenberg às 7:00 da manhã, matando Kamarov. A cabine explodiu com o impacto, e quando as equipes de resgate da Força Aérea Soviética chegaram ao local tudo que encontraram foi mental flamejante. A borda do topo da nave foi a única coisa reconhecível no cenário de destruição.

Soyuz 1

Quando Kamarov estava em queda livre para a morte, os postos de escuta da União Soviética escutaram-o chorar de raiva, amaldiçoando as pessoas que o colocaram dentro de uma nave espacial com problemas. Ele disse que os oficiais de controle em terra sabiam que estava prestes a morrer. O primeiro-ministro soviético Alexei Kosygin realizou uma vídeo-chamada para dizer que ele era um herói. A esposa de Kamarov também estava na chamada. Kosygin chorava. Quando a cápsula começou a sua descida fatal, a inteligência americana “pegou” [de Kamarov] gritos de raiva enquanto ele mergulhava para a morte. Alguns tradutores escutaram ele dizer “O calor está subindo dentro da cápsula”. Ele também usou a palavra “assassinado” – presumivelmente para descrever o que os engenheiros tinham feito com ele.

O consenso posterior foi de que toda missão tinha sido levada às pressas antes que a Soyuz estivesse realmente pronta. A morte de Vladimir Kamarov parece ter sido tirado de um script. Yuri Gagarin disse o mesmo em uma entrevista concedida ao Pravda – principal jornal da União Soviética, semanas depois do acidente. Ele criticou duramente as autoridades que deixaram seu amigo voar. O Gagarin de 1967 era muito diferente do jovem despreocupado de 1961. A morte de Kamarov acabou colocando uma enorme carga de culpa em seus ombros. Em um certo ponto Gagarin disse: “Eu tenho que ver o principal homem [Brezhnev] pessoalmente”. Ele estava profundamente deprimido pelo fato de não ter conseguido convencer Brezhnev a cancelar o lançamento de Kamarov. Gagarin morreu na queda de um avião de combate.

Valentina Komarov

Kamarov foi honrado com um funeral de estado em Moscou e suas cinzas foram enterradas na Necrópole da Muralha do Kremlin na Praça Vermelha. Os astronautas americanos haviam solicitado uma permissão para que um de seus representantes assistir, mas tiveram sua solicitação negada. Kamarov foi postumamente condecorado com uma segunda Ordem de Lenin (a maior condecoração da União Soviética. Seu nome é uma referência a Vladímir Ilitch Lenin) e com a Ordem de Herói da União Soviética (o maior título honorário e o grau superior de distinção da União Soviética.).

Mas porque lhe deram um funeral de caixão aberto? Kamarov exigiu isso pessoalmente, porque ele queria enviar uma mensagem para as autoridades do governo que haviam causado sua morte. Ele sabia que a cápsula era insegura e muito provavelmente morreria, ele sabia que não voltaria vivo. Assim fez uma exigência antes de ser lançado. Sua vingança final obrigava seus superiores a olhar para o que eles tinham feito

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